Histórico e características do Ribeirão

Um dos  primeiros povoados de Florianópolis que mantém o mais antigo e fiel valor histórico arquitetônico açoriano da ilha, sendo o principal centro histórico da cidade. É composto por diversas praias pequenas banhadas pela baía sul, com águas calmas e areia grossa e, além disso, é o maior pólo de criação de ostras do Brasil, reconhecido pela sua qualidade. Seu nome é devido a um rio, que nasce de uma forte cachoeira no Alto Ribeirão.

A chegada dos açorianos foi a partir de 1760, onde a praia, antes ocupada por Carijós, começa a receber a configuração atual e a comunidade do Ribeirão guarda o principal relicário dos traços da Colonização Açoriana do século XVIII. A localidade que chegou a receber o nome de Freguesia de Nossa Senhora da Lapa possui o morro mais elevado da ilha – Morro da Cabeça do Macaco, como 532 metros.

O distrito está a 27 km do cento, ao sul da ilha e possui uma área total de 52km² divididos em Freguesia do Ribeirão, Alto Ribeirão, Barro Vermelho, Caiacangaçu, Caeira da Barra do Sul, Carianos, Costeira do Ribeirão, Praia dos Naufragados, Praia da Tapera e Sertão do Peri. É o segundo distrito mais antigo da cidade, onde se preservam tradições como a Festa de Nossa Senhora da Lapa, Festa do Divino, produção de rendas de bilro, canoas, balaios de cipó e pesca artesanal.

Caracterizado por suas casas geminadas e alinhadas na rua fronteira ao mar e características arquitetônicas peculiares, possui dois elementos marcantes, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa e a Sé da Paróquia, inauguradas em 1806, a base de pedra de cal e azeite de baleia. Essas edificações fazem parte de um conjunto arquitetônico preservado por lei municipal de 1975, juntamente com o cemitério, os fundos e ao lado.

A maricultura é outra característica bem valorizada na região e em constante crescimento, mas vale ressaltar que essa atividade afeta diretamente a comunidade. Como afirma,  Maria Ignez Silveira Paulil em sua tese, “com relação à maricultura como alternativa para as famílias de pescadores, em que pese sua real importância neste sentido, é preciso levar em conta  as múltiplas possibilidades de exclusão que estão aparecendo: famílias com recursos e/ou instrução insuficientes para competir com os novos interessados na atividade; população costeira pobre que vive do turismo; população afetada pela poluição ambiental; mulheres que continuam dependendo dos maridos para qualquer movimentação no espaço público; mulheres assalariadas mal remuneradas, entre outros.”

Em um estudo nos dados do IBGE, senso 2000, esse contraste entre riqueza cultural e situação sócio-econômica da população  é bem visível. A renda média mensal por responsável domiciliar no bairro não supera a média municipal, sendo metade do valor. Indicando um população de classe baixa e média-baixa em sua grande maioria. Outro relato interessante, é a inexistência de prédios, de construções multifamiliares. O estudo também é inferior a média municipal.

Desintegração da comunidade Açoriana

As bruxas foram embora e outras coisas desapareceram com elas. “Eu acho – continua a Nilza – que se acabou o pão-pordeus, porque veio a juventude com muito estudo, veio o transporte…Antes a gente vivia muito junto… Nós saía pra cidade (24 Km.) pra vender renda, de pé.”  A facilidade de transporte, segundo a Nilza, desestruturou o grupo de amizade, no qual  a brincadeira do pão-por-deus tinha um significado forte.

Primeiros imigrantes e a Arquitetura Colonial Portuguesa

 Os primeiros imigrantes vieram do arquipélago de Açores em 1748 e foram alocados em vários núcleos denominados freguesias. Com a ocupação, iniciou-se em Nossa Senhora do Desterro (antigo nome de Florianópolis) a construção das primeiras habitações em estilo português colonial ou luso-brasileiro colonial, muitas vezes erroneamente classificado como açoriano. A gerente do Sephan (Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural) de Florianópolis, Suzane Albers Araújo, explica que a cultura da Capital é açoriana, mas a arquitetura é portuguesa. A gênese das edificações açorianas é a mesma das presentes na porção continental de Portugal.

Elementos construtivos da Arquitetura Colonial Portuguesa

Nos núcleos urbanos, os lotes eram estreitos e compridos, com uma grande profundidade. As construções ficavam alinhadas à rua e, por segurança, eram geminadas – grudadas umas nas outras -, configurando um contínuo correr de casas semelhantes. A maior parte das casas era térrea, mas também existiam os sobrados: edificações de dois pavimentos, sendo a parte inferior utilizada para o comércio. O telhado, na maior parte das vezes, era em duas águas: duas faces, uma voltada para a frente do terreno e outra para os fundos. Poucas tinha quatro águas. As construções rurais eram geralmente maiores que as urbanas.

Alguns elementos construtivos chamam a atenção, como os acabamentos dos telhados. Entre eles estão o Beira-seveira – telhas superpostas que funcionam como prolongamento do telhado. A maioria das casas era branca com as janelas e portas pintadas com cores vivas. As janelas possuíam apenas madeira. O uso do vidro já mostra uma evolução e maior poder aquisitivo.

Eram casas de porta e janela num compartimento de entrada; dali saia um corredor com um quarto ao lado atrás da primeira sala, sem janelas. Os corredores iam terminar noutra sala, a varanda, onde ia abrir outro quarto, também sem janela, os outros compartimentos do fundo que davam pro quintal .
Eram tais feitas de tijolos com traço de cal de conchas e areia, ligados com azeite de baleia, o cimento da época. A pobreza não tinha o azeite, e o traço não passava então de um barro grosso, cal areia, misturados com água: com o tempo, essa mistura se esfarelava e as paredes, sob o peso da cumeeiras de madeira pesada iam perdendo o prumo.

Mais tarde outras casas melhores, mais confortáveis, com várias janelas a frente, com caixilhos em losangos duplos e superpostos gradeados. As portas já estenham bandeiras, com motivos desenhados e as calhas aparecem. Era comum bandeira da porta com motivos ornamentais de ferro; caixilhos da janela com losangos de vidro, o beirado gotejando em dias de chuva para a rua e os ladrilhos enfeitando toda a parede frontal.

Quanto ao interior dessas casas, podemos dizer que continham geralmente grandes salas, altas e as vezes cobertas por azulejos, até a altura de um metro. Suas portas internas também são guarnecidas de bandeiras com desenhos de vidros coloridos, enquanto uma das paredes internas da sala de jantar contem as vezes, janelas internas, para permitir a passagem de luz aos quartos escuros; são fechadas por trancas, girando sobre os gonzos, ou por fechaduras enormes que pareciam garantir, com o seu tamanho, a segurança da casa.

As paredes são de boa largura, as vezes revestidas de papel decorativo importado com motivos coloridos, ou então, pintadas com barras coloridas de flores, frutas, folhagens, conforme a peça da casa.

O perfil das janelas era retangular ou em arco abatido, emolduradas em madeira ou, mais raramente, em pedra. Os pavimentos nobres podiam ter sacadas com gradis de ferro trabalhado. As janelas superiores também podiam ser cobertas com muxarabis ou treliças de madeira, enquanto que as janelas de vidro só passaram a ser comuns no final do século XVIII. Os telhados eram de duas ou quatro águas com beiral, às vezes com alguma ornamentação discreta como uma suave curvatura e telhas em bico nos cantos do telhado.

Nos fundos, fechava a fila a cozinha, a varanda alpendrada que dava acesso ao quintal, onde sempre havia um arremedo de instalação sanitária. Nos locais onde o lençol freático era profundo, havia a possibilidade de sumidouros – buracos em cima dos quais era instalada a casinha, também chamada de “secreta” ou “sentina”.

Fachadas

– A fachada básica da casa colonial era composta por uma porta (sempre frontal) e duas janelas; Embora houvesse muitas outras casas maiores, em todas elas prevalecia a métrica e os espaçamentos entre as aberturas;

– As diferenças sociais das famílias eram percebidas fortemente na arquitetura através da eira e da beira: detalhes presentes nos beiral e que eram uma forma bem clara de mostrar o poderio das famílias;

– No final do período começaram a ser utilizados revestimentos cerâmicos nas fachadas: a grande maioria dos azulejos era em tons de azul e amarelo devido aos pigmentos existentes na época;

– As fachadas dos sobrados continuam mantendo a métrica das casas térreas: as janelas dos pavimentos inferiores correspondem com as do pavimento superior;

– As casas e sobrados, com exceção dos casarões dos senhores, eram construídos lado a lado, por isso a ventilação ocorria somente em um sentido, conforme mostram as plantas;

Importância Urbano-Arquitetônica

O conjunto arquitetônico do Ribeirão da Ilha está entre os mais expressivos e antigos locais de fixação luso-açoriana na Ilha de Santa Catarina. Conserva ate os dias atuais um conjunto bastante homogêneo e integro de edificações típicas da sua época, pelo que consistem documentos vivos da história e cultura regionais.

Observando a malha urbana descobre-se a forma primitiva do traçado das vias. Percebe-se logo o modelo tradicional da colonização portuguesa: a igreja voltada para o mar, o espaço vazio à sua frente – ponto de encontro a reunião – que aos poucos tornou-se praça com as ruas, e as casinhas ao seu redor, dispostas ao longo do alinhamento. A estrutura fundamental, característica destes núcleos, definiu-se a partir de um potencial de uso do sítio natural para as atividades de pesca e de agricultura de subsistência, considerando-se a acessibilidade pelo mar; junto ao mar, em sítios mais resguardados    dos ventos característicos da região, no sopé dos promontórios, acompanhando a linha da praia e das picadas de acesso ocorreu uma ocupação tipicamente linear. Tal ocupação originou um parcelamento típico do solo com base nos minifúndios, inicialmente demarcados em função das iniciativas de utilização.

O desmembramento por herança, num segundo momento, reforçou a característica longitudinal da estrutura fundiária,  quando as propriedades foram divididas em sua testada, proporcionalmente ao número de herdeiros.

Um novo processo característico da ocupação da área corresponde ao início do uso como balneário, possibilitado pela chegada de veranistas, como resposta à notável oferta de sítio natural, evidenciada pelas praias de cenários peculiares e bastante diversificados.

Referências

LEFEBVRE, Henri; O Direito à Cidade. Editora Centauro. 5ª edição, 2008.

MACHADO, Márcia. Maricultura como base produtiva geradora de emprego e renda: Estudo de caso para o Distrito do Ribeirão da Ilha no Municipio de Florianópolis – SC- Brasil. Tese de Doutorado co Programa de Pós graduação em Engenharia de Produção, 2002. UFSC.

BUENO, Ayrton Portilho. A Premência da Paisagem no desenvolvimento sustentável da atividade turística. Tese de Doutorado em Arquitetura e Urbanismo.  USP, 2006

PAULIL, Maria Ignez Silveira. Maricultura e Território em Santa Catarina. – Brasil. Caderno de Pesquisa – PPGSP – UFSC, nº 31, agosto de 2002. Disponível em: http://www.sociologia.ufsc.br/cadernos/Cadernos%20PPGSP%2031.pdf Acesso em setembro de 2011.

Moradores do Ribeirão da Ilha se unem para combater as enchentes no bairro. Publicado em 22.01.11 por Emanuelle Gomes. Disponível em: http://www.ndonline.com.br/florianopolis/noticias/moradores-do-ribeiraao-da-ilha-se-unem-para-combater-as-enchentes-no-bairro.html Acesso em setembro de 2011.

Freguesia no Ribeirão da Ilha é criada há 202 anos. Publicado em 19.01.2011 por Mané Gaivota. Disponível em: http://www.clicrbs.com.br/especial/sc/horadesantacatarina/19,0,3180342,Freguesia-no-Ribeirao-da-Ilha-e-criada-ha-202-anos.html Acesso em setembro de 2011.

Ribeirão da Ilha: Um Estudo através de Inventários (1860 – 1867). Trabalho de Conclusão de Estágio apresentado  ao curso de História no ano de 2006. Disponível em: http://www.pergamum.udesc.br/dados-bu/000000/000000000003/000003A7.pdf Acesso em setembro de 2011.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s